Archive for January, 2012

A Espanha rebelde, por Antonio Negri

Assuntos: 15-M, Bruno Cava, Espanha, Toni Negri.

De dentro das praças e acampamentos, filósofo e militante italiano discute formas de organização, demandas e perspectivas do movimento na Espanha

Por Antonio Negri | Tradução de Bruno Cava

Na última semana, estive na Espanha a trabalho. Estive naturalmente envolvido com os “indignados”: atravessei algumas praças e acampamentos, questionei e discuti com muitos companheiros. Quem são os “indignados”? Não pretendo responder — há dezenas de narrativas facilmente encontráveis sobre isso. Relato aqui somente alguns apontamentos.
Democracia Real Ya nasceu dois meses antes do 15 de maio. É uma associação de militantes digitais, menos radicais, porém mais eficazes que o grupo Anonymous. Já havia movimentos desde janeiro de 2011 contra a Lei Sinde, que pune a pirataria na Internet; e articularam um discurso e uma luta contra a assinatura daquele acordo entre PP e PSOE (direita e esquerda), que viabilizara essa lei, promovida inclusive pelo vice-presidente americano. Em conseqüência, a associação incita à recusa do voto: “no les votes!”, e desenvolve um discurso sobre o sistema representativo espanhol, contra o bipartidarismo, com a exigência de uma nova lei eleitoral proporcional, dirigida a favorecer o pluralismo e a equidade.
Um segundo grupo interessante é o V de Vivienda. É um movimento de luta pela moradia, começado em 2005 (“por uma moradia digna”) e desenvolvido em rede, como reação ao estouro da bolha imobiliária. Em rede, convocam manifestações, produzem verdadeiros “enxames”, com grandes mobilizações iniciais que, contudo, encontraram dificuldade em obter um impacto político mais duradouro.
Um terceiro movimento é o dos “hipotecados”. Surge em Barcelona e constitui uma plataforma de ajuda recíproca das famílias e indivíduos que, por causa de hipoteca ou débito bancário ou insolvência privada, terminaram despejados. Valoriza muito a aparição midiática — inclusive nos meios tradicionais. Esta competência foi muito importante para as lutas e a construção do 15-M.
Um quarto grupo se formou nas várias assembléias e coletivos do cognitariado urbano. Esses não possuem militantes orgânicos. Trata-se essencialmente de uma esquerda intelectual, que protesta e coopera em rede, assumindo posições radicalíssimas contra a precariedade e a incerteza do trabalho, além de contestar os baixos salários. São grupos do trabalho imaterial crescidos na crise, “dentro e contra”.
Além desses, em certo momento, principalmente em abril deste ano, se apresentou na cena também uma rede da “esquerda autônoma” sindical, — geralmente ligada à Izquierda Unida: Juventud Sin Futuro. O nome diz tudo. Esta organização começa uma ampla agitação, com a importante capacidade de repercutir nos grandes jornais, e tenta convocar uma manifestação em 7 de abril. É um prólogo importante, haja vista que, entre 7 de abril e 15 de maio, o anúncio da “grande manifestação” se dissemina de modo viral pelas redes.
Quem é a gente que se reuniu no 15 de maio nas praças da Espanha? Existem dois componentes de peso. O primeiro é essencialmente a classe média empobrecida, desempregados, pequenos empresários em crise, profissionais que não conseguiram sucesso, ou foram rejeitados pelas empresas, trabalhadores autônomos recentemente golpeados pela crise, ou assediados pelo fisco, — a quem se juntam os cidadãos sem casa própria e sem condições de adquiri-la, os que vivem como inquilinos. Um segundo componente, fortemente majoritário nos acampamentos, é o cognitariado metropolitano: trabalhadores digitais e cognitivos, precários do setor dos serviços e de todos os gêneros de atividade imaterial, estudantes e jovens sem futuro. Alguns poucos imigrantes também apareceram nas manifestações e assembléias para se expressar. No movimento, muitas mulheres se destacaram nas discussões e lideraram a organização dos acampamentos. Esses sujeitos constituem um movimento que não é identitário, que não é simplesmente movimento de solidariedade. Todos falam em primeira pessoa. É um movimento contra a crise e a pobreza, de toda a classe média (num sentido amplo).
Indignados. Foram os meios de comunicação que impuseram este nome, importado do célebre opúsculo de Stéphane Hessel. Nisso, o movimento reconheceu rapidamente uma tentativa de reduzi-lo a mero protesto moral, de relegá-lo a um terreno não-político (com a ameaça implícita que, se começasse a atuar politicamente, haveria repressão). O movimento reagiu imediatamente: pacífico, praticando a “recusa à violência”, teorizada e proclamada como “recusa do medo”. Este é um dado constante e importantíssimo na formação e na firmeza do movimento. Exprime a consciência que, quando há medo, se é levado naturalmente a responder violentamente à violência; que o governo tenta amedrontar (um gesto hobbesiano) para incitar uma resposta do movimento, tão violenta quanto vazia e, como resultado, legitimar a repressão. A resistência não-violenta do movimento permitiu uma aceleração extraordinária, uma enorme expansão (metrópoles, cidades, vilas), a sua aparição como “evento” irrefreável.
A linguagem do movimento é simples e popular, mas não populista. Foi sugerido na Democracia Real Ya: “não somos uma mercadoria nas mãos dos banqueiros e políticos”. A linguagem foi trabalhada nas redes e pela incrível quantidade de comunicações, agenciamentos, sites e fóruns no facebook, tuíter etc. Que, em uma democracia real o poder seja ação que exercitamos sobre a ação do outro — e assim fica implícita a dissolução de toda autonomia do político — constitui a chave da linguagem do movimento. A isso se junta a crítica da constituição democrática, aos três poderes tradicionais (legislativo, executivo, judiciário), porque não correspondem mais às funções originais. A dimensão pública do Estado, quando não é atravessada pela participação dos cidadãos, não pode mais ser considerada legítima. Nas formas atuais, o público não passa de uma superestrutura do privado. Exige-se, portanto, um novo poder constituinte, visando à construção do comum. Pode-se dizer, mais claramente, que o movimento dos indignados é um movimento radicalmente constituinte?
Nele, propõe-se um novo modelo de representação. De um lado, as redes; de outro, as assembléias. Partindo das assembléias nas praças centrais das cidades, se chega “em rede” às assembléias locais, nos bairros das metrópoles e, finalmente, às pequenas cidades e vilas. O retorno, por sua vez, é direto e veloz. A organização da base — pela base — pelas assembléias constitui assim o percurso e a estrutura da “democracia real”, além da representação. A rede oferece uma temporalidade imediata. Já na organização/difusão espacial (quando os tempos são mais longos), as assembléias institucionalizam o movimento.
O 15-M parece nascer do nada. Não é verdade: além do papel dos grupos, além da casualidade (latente e perversa) da crise, se notam no movimento acumulações, sedimentações, recomposições ao longo do tempo.
Pra começar, há analogia com o que ocorreu em março de 2004, quando o “movimento contra a guerra”, insurgido contra Aznar nos dias anteriores às eleições, protestou ante a atribuição dos atentados terroristas na estação central de Madrid aos bascos e ao ETA. Também nesse caso se tratou da produção de um enorme enxame, à época convocado através dos telefones celulares, que transformou radicalmente o clima eleitoral e pavimentou o acesso de Zapatero e dos socialistas ao governo: a dita “comuna de Madrid”.
Diferentemente, hoje, não existe aquela enorme tensão, aquele grande medo, aquela violência, que então se disseminava pelos movimentos. Hoje há uma percepção maior da própria força, logo maior maturidade. Naquele momento, uma vez eleito, Zapatero tenta responder às dinâmicas do movimento, mas propõe ainda outra vez uma opção de representação política — que rapidamente se revelou uma mistificação, e insultante na medida em que foi encarada como traição. Agora não existe mais nenhuma hipótese reformista, existe no lugar disso a consciência da impossibilidade de modificar o sistema. Existe a percepção (sobretudo depois do resultado eleitoral desastroso para os socialistas, que tem a ver com o grande impacto da abstenção — cerca de 50%) que o movimento pode realmente fazer e desfazer os governos, mas hoje a isso se acrescenta um imaginário modificado, visto que nenhuma hegemonia partidária poderá mais corresponder ao movimento. “Ninguém nos representa”. O sistema constitucional está em crise.
A continuidade pode ser também registrada a respeito das formas de organização. Na configuração material dos acampamentos, resgataram-se particularmente as formas de luta dos operários da Sintel [NT. cujos trabalhadores fizeram greve por 11 meses seguidos, em 2001-02], que por meses e meses acamparam no centro de Madrid, depois do fechamento da empresa deles. A tradição do “acampar” foi recepcionada pela luta operária. Isto mostra como a interseção dos movimentos representa hoje uma passagem essencial na produção das lutas multitudinárias. Mesmo quando os organismos oficiais do movimento operário (sindical e partidário) se excluem da manifestação, a tradição das lutas operárias se inclui no processo e o desenvolve.
A partir dessa nota, vale a pena recordar outro elemento fundamental no 15-M — é o “Republicanismo” implícito, o lembrete melancólico, mas radical, de 1936. Toda a história da Espanha na modernidade é aqui colocada em jogo, contra uma governamentalidade capitalista e clerical, reacionária e repressiva, liberal e reformista, que não encontra par noutros países da Europa.
Tudo isso ajuda a compreender a dinâmica de organização deste movimento. Irrompe de um amadurecimento capilar, numa dimensão microssocial, completamente voluntarista. Há um máximo de cooperação, que não se produz simplesmente por indivíduos ou coletivos, mas se organiza “todos juntos”, na sinergia. Igualmente a elaboração teórica é coletiva. Nas assembléias todos têm direito à palavra. O nível da discussão é por vezes descontínuo, mas sempre rico de intervenções competentes, no mérito e na eficácia da proposta. Parece incrível, mas, de verdade, ocorreram formidáveis e inovadoras experiências, seja sobre o terreno da cooperação organizacional, seja sobre a elaboração teórica — experiências nunca repetitivas, burocráticas ou inúteis. Há uma maturidade geral que desenvolveu novas habilidades — porém, especialmente, que evitou contraposições dogmáticas e/ou sectárias. Aqueles que já estavam organizados em grupos não foram excluídos, mas implicados no “todos juntos”. Não houve necessidade de um “savoir faire” político particular, mas somente de competência e capacidade de participar de um projeto comum.
Os dois processos fundamentais de organização que se integraram foram acomunicação em rede (que permite a articulação de centralizações e descentralizações territoriais) e a interseção de componentes sociais (que permite a recomposição programática do proletariado social).
Considerando a característica da recomposição (dos movimentos e dos programas), compreende-se também um espírito constituinte, que evita amálgamas politicamente contraditórios (por exemplo, entre grupos e organizações que disputam usualmente a hegemonia um contra o outro) e, por isso, não gera enfatuações sectárias ou abstratas, puramente dogmáticas. Os indignados falam entre si, nas assembléias ou na rede, de programas, de coisas por fazer, de metas conjuntas, de problemas concretos… O espírito constituinte predomina. “Todos juntos” — aqui se constrói o comum.
Uma organização de subsistência totalmente horizontal foi criada, com a cozinha e o serviço de policiamento da praça acampada, com uma centralização informática e informativa, com horários definidos em assembléia, com decisões, comissões jurídicas e médicas etc.
Quais são os mecanismos de decisão do movimento? Democracia direta, logo decisões tomadas de modo assemblear, atreladas à curta duração nas funções de representação (porta-vozes). Sabe-se que tomar uma decisão nessas condições exige longo tempo, que o processo decisório muitas vezes deve elevar-se acima dos efeitos tumultuados de uma discussão caótica. Contudo, isto não impede de chegar, através da nomeação de porta-vozes (a cada dia substituídos), à tomada de decisão, e a sua comunicação pública — com legitimidade consensual. Seja a decisão, seja a discussão que se produziu, tudo é arquivado no site do movimento. Corre em paralelo ao processo uma verificação em rede das decisões tomadas. Põe-se assim em movimento uma estrutura policêntrica de decisão e, enquanto nas assembléias a decisão exige longo tempo, nas redes a verificação da decisão se dá muito velozmente.
Este processo decisório constroi uma novidade radical em relação às melhores experiências de movimentos recentes (Seattle, Gênova etc), quando as decisões coletivas dificilmente conseguiam associar expressão exata dos comportamentos à urgência do evento, juntar a continuidade com a extensão da iniciativa… Para não falar de sua institucionalidade.
Como já dissemos, o movimento surgiu na soma de iniciativas de vários grupos, num período de experimentação de mobilizações ágeis, da repetição de ações em flash: e ao final se deu, em concomitância com as manifestações gigantes, a decisão de acampar. O acampamento e a consolidação da modalidade assemblear que o seguiu representam assim uma relativa ruptura/descontinuidade com o modelo de decisão em rede. Tanto mais que, nos acampamentos, a composição social se complica. Ao lado dos sujeitos citados acima, encontramos também frações marginais do proletariado (cognitivo ou não): desocupados, migrantes, “loucos” e/ou “hippies”, e alguns pequeno-burgueses arruinados e desesperados… Tudo isso pode criar problemas que, por um lado não podem ser agilmente resolvidos, por outro também não vamos exagerá-los, de modo a não romper o processo global de organização e decisão. Outra prova do “bom senso” deste movimento.
Os temas programáticos discutidos nas assembléias e retomados na circulação em rede, sempre firmados em documentos, são fundamentalmente os seguintes:
Trabalho precário. Requerem-se trabalho e/ou renda para todos. A discussão não implica ideologias “trabalhistas” (os sindicatos foram excluídos, a UGT e a CO, bem como outras forças políticas): dizer “trabalho para todos” significa dizer “renda para todos”. O tema da renda universal é bastante disseminado. E se torna hegemônico quando os trabalhadores autônomos de 2ª Geração representam a maioria da assembléia. E adicionalmente: redução da jornada laboral, aposentadoria aos 65 anos, seguridade do trabalho, proibição de demissões, ajuda aos desempregados etc.
Direito à moradia. Expropriação do estoque de moradias não vendidas e transferência delas ao mercado de aluguéis controlados. Plano para o cancelamento das hipotecas etc.
Tributação. A crítica é muito forte à desigualdade de tratamento dos trabalhadores, sejam independentes ou dependentes, da parte do fisco. Aumento da tributação sobre as grandes fortunas e os bancos. Relançamento do imposto patrimonial. Controle real e efetivo das fraudes fiscais e da fuga de capitais através dos ditos paraísos fiscais. Mas o tom da discussão é acima de tudo contra os bancos, contra a estrutura financeira etc. Proibição de injeção de capital nos bancos responsáveis pela crise. Controle social dos bancos. Sanções para o movimento especulativo e as más práticas bancárias. O conceito fundamental exprimido nas assembléias é que existe uma grande riqueza social, mas ela é expropriada pelo fisco e pelos bancos. As operações bancárias tais quais hoje estão repletas de usura em relação aos pobres, e de prepotência diante da sociedade. Requer-se a generalização da Lei Tobin inclusive nas transferências internas e internacionais entre os bancos.
Sistema eleitoral. A solicitação pela mudança da lei eleitoral e das regras de representação é pesadíssima e assunto da mais alta urgência. Entende-se que o sistema bipolar espanhol seja intolerável, que as duas grandes forças parlamentares são igualmente corruptas e responsáveis pela crise. Solicita-se assim que o sistema eleitoral seja modificado no sentido do voto proporcional, e uma proposta de referendo sobre o tema (500 mil assinaturas) já foi lançada. Além disso, mais democracia participativa: não ao controle da Internet e revogação da Lei Sinde, generalização do método referendário etc.
Sistema judiciário. Considera-se completamente nas mãos dos políticos e banqueiros, incapaz de perseguir a corrupção e, sobretudo, inapto para corrigir o déficit de representação ou promover um senso igualitário ao sistema normativo como um todo. Quando se fala em justiça, se contrapõe à corrupção política um discurso de dignidade — e não aqui um moralismo pequeno-burguês, mas um sentimento forte de autonomia ética e política.
Serviços comuns. Reorganização dos serviços de saúde. Contratação de sindicatos de professores, para garantir uma taxa mais correta de alunos por sala de aula e grupos de reforço escolar. Gratuidade da educação universitária. Financiamento público da pesquisa, para assegurar a sua independência. Transportes públicos de qualidade e ecologicamente sustentáveis. Constituição de redes de controle local e serviços municipais etc.
Alguns temas foram evitados nas assembléias. O tema “nacional” em primeiro lugar — vale dizer que não colidiram nacionalismos diversos (coisa muito costumeira no debate político espanhol), se falou em todas as línguas, castelhano, basco, catalão etc. Esse é um elemento extremamente importante na experiência dos acampamentos. Outros temas por enquanto exclusos da discussão: a Europa e, parcialmente, a guerra (às vezes contestada a despesa militar do governo). A essência do debate sobre esses temas é bastante bizarra, e corresponde, todavia, à informação insuficiente e à forte ambigüidade que geralmente se sente em relação ao tema europeu e ao da Aliança Atlântica.
O que pode tornar-se esse movimento em uma perspectiva temporal mais longa? Ele pode constituir um contra-poder permanente e/ou organizar-se como poder constituinte. É difícil prever qual será o caminho. Se organizando uma espécie de dualismo do poder (acontecimental e periódico); ou se desenvolvendo um poder constituinte que tenta uma penetração e uma transformação das estruturas do estado. Certo é que, de dentro da prática da Praça contra o Governo, aparece positivamente o projeto de uma regeneração republicana: a República contra o Estado; como na tradição espanhola (antes e através da guerra civil) esse projeto fora vivenciado. Na Espanha, trinta anos depois do fim do franquismo, falta ainda uma crítica do fascismo, carece ainda uma denúncia da continuidade da direita negocista e financeira em relação ao regime franquista. Isto significa que o movimento — também e sobretudo no seu êxodo atual — se situa radicalmente à esquerda, mas certo fora daquela esquerda representada por Zapatero — cuja ação política sempre consistiu em uma gestão servil do capital. O 15-M não se opõe à política em geral, mas ao sistema dos partidos.
Como dito, se fala pouco da Europa nos acampamentos. Quando nela se fala, recorda-se a sua opacidade. E, entretanto, é particularmente evidente a necessidade de um relé [relais] europeu, da assunção de uma dimensão continental à discussão política.
O que ocorrerá daqui pra frente, depois do tempo breve das manifestações? Três possibilidades devem ser consideradas. A primeira: o fim da frustração. A segunda: uma radicalização que se aglutina. Mas a terceira é aquela de uma reterritorialização estável, nos bairros, na sociedade, com uma capacidade de mobilização contínua. Parece que os manifestantes querem agrupar-se e articular-se em um movimento sócio-político, com particularidades em todas as regiões, com uma auto-gestão em escala territorial. A cada dia 15 do mês, os grupos nos territórios deveriam colocar-se de acordo sobre uma plataforma de reivindicações e um calendário de mobilizações. Assim se dará, seguramente, a continuidade do movimento, — pelo menos até as eleições gerais do próximo ano. Resta compreender se a adesão da população permanecerá tão maciça no próximo período. Isto dependerá em parte do comportamento das autoridades: se reprimem o movimento, a solidariedade que o caracteriza deverá reforçá-lo. Em qualquer caso, os problemas fundamentais que sobram em aberto são, em primeiro lugar, aqueles ligados à reterritorialização do movimento e, além disso, a construção de uma rede europeia.

The Common in Revolt

Posted: January 30, 2012 in 2011

The Common in Revolt
Sunday, August 14, 2011
by JUDITH REVEL and TONI NEGRI
It did not take much imagination, once the analysis of the current economic crisis had been brought back to its causes and social effects, to foretell urban revolts akin to jacqueries. Commonwealth had predicted that already in 2009. What we did not expect, on the contrary, is that in Italy, in the movement, this prediction could be rejected. It seemed in fact, we were told, ancient; they told us, instead: now is the time to rebuild broad fronts against the crisis and establish within the movements forms of organization-communication-recognition to address political representation.
Well, now we are nonetheless facing movements that express themselves in more or less classic insurrectionary forms and yet are everywhere, thus uprooting the old geopolitical grammar within which someone stubbornly kept thinking. What we have is, therefore:
1) A new proletariat, made of precarious and unemployed workers, joins the middle classes in crisis. These are diverse subjects unifying in unusual ways in the struggle, asking, as in the countries of the Southern Mediterranean, new, more democratic forms of government. The political dictatorship of the Ben Alis and the political-economic one of our fake democracies may not be equivalent – although for decades the latter have accurately built, supported, and protected the former – but by now the urge for radical democracy is everywhere and marks a common of struggles emerging from different sides, blending and intertwining, cross-breeding one another’s demands.
2) The very same social forces, those suffering from the crisis in societies with class relationships by now definitely controlled by financial regimes within mixed, manufacturing and/or cognitive economies, are moving across different terrains (first movements of workers, students, and precarity more generally; now complex social movements of the “acampados” kind) with equal determination.
3) The resurgence of movements of pure refusal is crisscrossed by a societal composition as complex as ever, stratified both vertically (i.e. middle classes plunging towards the excluded proletariat) and horizontally (i.e. in relation to different sectors of the metropoles, torn between gentrification and – as Saskia Sassen notices – “Brazilianized” zones, where clashes among gangs start leaving the marks of AK-47 bullets on the walls of those neighborhoods where the sole – dramatic, entropic – alternative to organized struggles is organized crime).
The current English revolts belong to this third kind and are quite similar to the ones that some time ago have affected the French banlieues: a mix of anger and desperation, fragments of self-organization and crystallizations of other kinds (neighborhood associations, networked solidarities, soccer fans’ clubs, etc.) expressing by now the unbearability of lives turned to rubble. The rubble, surely unsettling, these revolts leave behind them is not in the end so different from what the everyday lives of so many men and women is made of today: shreds of life in one way or another.
How can we open a discussion on these complex phenomena from the standpoint of thinking the common? What we argue below has the mere intention to open a space for debate.
First and foremost, it seems to us that we need to debunk some interpretations voiced by the mass media of the ruling classes.
They argue, to begin with, that these movements we are discussing should be considered, from a political point of view, in their “radical” diversity. Now, it is obvious that these movements are politically diverse. But to say that they are “radically” so is simply idiotic. All these movements are, in fact, radically characterized not only because they oppose Ben Ali or other dictators, whatever is the case, or because they denounce Zapatero’s or Papandreou’s political betrayal, or because they hate Cameron or refuse the impositions of the European Central Bank. They are, rather, characterized as radical because all of them refuse to pay for the consequences of the economy and the crisis (nothing would be more mistaken than considering the crisis as a catastrophe striking a fundamentally sane economic system; nothing would be more terrible than nostalgia for the capitalist economy before the crisis), which is to say the huge movement of wealth that is now taking place to the benefit of the powerful, organized as they are in the political forms of the Western regimes (democratic or dictatorial, conservative or reformist alike…).
These are revolts born, in Egypt, Spain, or England, out of the simultaneous refusal of the subjection, exploitation and plunder this economy has prepared for the lives of entire populations of the world, and the political forms within which the crisis of this biopolitical appropriation has been managed. And this is also true for all the so-called “democratic” regimes. Such a form of government appears only preferable for the seeming “civility” with which it masks the attack on the dignity and humanity of the existences it crushes, but the vanishing of political representation is now at the point of collapse. To argue that there are – according to the criteria of Western democracy – radical differences between the representativeness of Ben Ali’s Tunisia and Cameron’s Tottenham or Brixton, is simply to denying the evidence: life has in both cases been so violated and plundered that it cannot but explode in a movement of revolt. Not to talk of mechanisms of repression, which are bringing England back to the times of primitive accumulation, to the jails of Moll Flanders and the factories of Oliver Twist. To the mugshots of youth in rebellion posted on the walls and the screens of England’s cities one should really juxtapose large sized prints of the swinish faces (a variant of the PIGS?) of the bankers and financial corporate bosses that have turned entire communities to that condition, and keep fattening their profits out of this crisis.
Let’s go back to the newspaper’s trivia. They also say that these revolts are different from an ethical-political standpoint. Some would thus be legitimate, as in the Maghreb countries, because there the corruption of dictatorial regimes has led to miserable conditions; the protests of the Italian students or the Spanish “indignados” would still be understandable because “precarity is bad”; the revolts of the English or the French proletariat are, instead, “criminal” as they are allegedly marked by mere looting of other people’s property, hooliganism and racial hatred.
All this is largely false, because these revolts tend – with all the differences among them, which we don’t deny – to have a common nature. They are not “youthful” revolts, but revolts that understand social and political conditions that increasingly large layers of the population consider entirely unbearable. The degradation of the working and social wage has gone beyond the threshold identified by classical economists and by Marx with the level of workers’ reproduction, which they called a “necessary wage”. And now, we dare the journalists to argue that these struggles are produced by excesses of consumerism!
Here comes a first conclusion. These movements can be defined as “recompositional”. They actually penetrate populations – be they workers guaranteed up to now or precarious ones, unemployed or those who have only known odd jobs, improvisation and off-the-books activities – exalting their moments of solidarity in their struggle against destitution. Declining middle classes and the proletariat, migrant and not, manual and cognitive workers, retirees, housewives, and youth are joined in poverty and the struggle to oppose it. Here they found conditions for a united struggle.
Second, it is immediately apparent (and this is what mostly terrifies those who assume consumerist characteristics in these movements) that these are not chaotic and nihilistic movements, that they are not about burning for burning’s sake, that they don’t just want to sanction the destructive potency of an unforeseeable “no future”. Forty years after the punk movement (which on the other hand was, in spite of the stereotypes, passionately productive), these are not movements declaring the end, recorded and internalized, of every future; they rather want to build the future. They know that the crisis affecting them is not due to the fact that the proletariat does not produce – either under a boss or in the general condition of social cooperation by now underpinning processes of capture of value – or does not produce enough, but is happening because they are robbed of the fruit of their productivity; which is to say, they are forced to pay for a crisis that is not their own; they have already paid for healthcare, retirement and public order systems while the bourgeoisie was accumulating for war and expropriating for its own profit. But mostly they know that there’s no way out of this crisis until they, the rebels, don’t handle the power mechanisms and the social relations that regulate those mechanisms. But, one may object, these are not political movements. Even if – the critics add – they expressed politically correct positions (as it has often happened for the North-African insurgents or the Spanish “indignados”) these movements are prejudicially outside or critical towards the democratic order.
Of course, we would like to add: it is difficult if not impossible to find, in the current political order, passages and paths through which a project attacking the current policies for overcoming the crisis can take place. Right and left are, almost always, alike. For the former the wealth tax should hit incomes of 40-50,000 Euros, for the latter of 60-70,000 Euros: is this the difference? The defense of private property, the extension of privatization and liberalization are in the agendas of both sides. Electoral systems are by now reduced to the pure and simple selection of delegates from the privileged strata, and so on and so forth. These movements are attacking all this: are they political or not when they do so? These movements are political because they position themselves on a constituent, not a claim-making, terrain. They attack private property because they know it as the form of their oppression and rather insist on the constitution and self-management of solidarity, welfare, education – in short of the common, because this is by now the horizon for old and new powers.
Of course no one is so stupid to think that these revolts immediately produce new forms of government. What, nonetheless, these revolts teach is that “the one is now split into two”, that the seemingly flawless solidity of capitalism is by now only an old phantasmagoria, which in no way can be brought back together, that capital is immediately schizophrenic and the politics of the movements can only locate itself within this fracture.
We hope that those comrades who believed insurrections to be an outdated tool of autonomist politics will be able to reflect on what’s going on. It is not by wearing ourselves off waiting for parliamentary deadlines but by inventing new constituent institutions for the common in revolt that we can understand together what is to come.

* http://uninomade.org/commoninrevolt/
Translation courtesy of: Franco Barchiesi, A Tribe of Moles

Michael Hardt and Antonio Negri

October 11 2011, Foreign Affairs

Demonstrations under the banner of Occupy Wall Street resonate with so many people not only because they give voice to a widespread sense of economic injustice but also, and perhaps more important, because they express political grievances and aspirations. As protests have spread from Lower Manhattan to cities and towns across the country, they have made clear that indignation against corporate greed and economic inequality is real and deep. But at least equally important is the protest against the lack — or failure — of political representation. It is not so much a question of whether this or that politician, or this or that party, is ineffective or corrupt (although that, too, is true) but whether the representational political system more generally is inadequate. This protest movement could, and perhaps must, transform into a genuine, democratic constituent process.

The political face of the Occupy Wall Street protests comes into view when we situate it alongside the other “encampments” of the past year. Together, they form an emerging cycle of struggles. In many cases, the lines of influence are explicit. Occupy Wall Street takes inspiration from the encampments of central squares in Spain, which began on May 15 and followed the occupation of Cairo’s Tahrir Square earlier last spring. To this succession of demonstrations, one should add a series of parallel events, such as the extended protests at the Wisconsin statehouse, the occupation of Syntagma Square in Athens, and the Israeli tent encampments for economic justice. The context of these various protests are very different, of course, and they are not simply iterations of what happened elsewhere. Rather each of these movements has managed to translate a few common elements into their own situation.

In Tahrir Square, the political nature of the encampment and the fact that the protesters could not be represented in any sense by the current regime was obvious. The demand that “Mubarak must go” proved powerful enough to encompass all other issues. In the subsequent encampments of Madrid’s Puerta del Sol and Barcelona’s Plaça Catalunya, the critique of political representation was more complex. The Spanish protests brought together a wide array of social and economic complaints — regarding debt, housing, and education, among others — but their “indignation,” which the Spanish press early on identified as their defining affect, was clearly directed at a political system incapable of addressing these issues. Against the pretense of democracy offered by the current representational system, the protesters posed as one of their central slogans, “Democracia real ya,” or “Real democracy now.”

Occupy Wall Street should be understood, then, as a further development or permutation of these political demands. One obvious and clear message of the protests, of course, is that the bankers and finance industries in no way represent us: What is good for Wall Street is certainly not good for the country (or the world). A more significant failure of representation, though, must be attributed to the politicians and political parties charged with representing the people’s interests but in fact more clearly represent the banks and the creditors. Such a recognition leads to a seemingly naive, basic question: Is democracy not supposed to be the rule of the people over the polis — that is, the entirety of social and economic life? Instead, it seems that politics has become subservient to economic and financial interests.

By insisting on the political nature of the Occupy Wall Street protests we do not mean to cast them merely in terms of the quarrels between Republicans and Democrats, or the fortunes of the Obama administration. If the movement does continue and grow, of course, it may force the White House or Congress to take new action, and it may even become a significant point of contention during the next presidential election cycle. But the Obama and the George W. Bush administrations are both authors of the bank bailouts; the lack of representation highlighted by the protests applies to both parties. In this context, the Spanish call for “real democracy now” sounds both urgent and challenging.

If together these different protest encampments — from Cairo and Tel Aviv to Athens, Madison, Madrid, and now New York — express a dissatisfaction with the existing structures of political representation, then what do they offer as an alternative? What is the “real democracy” they propose?

The clearest clues lie in the internal organization of the movements themselves — specifically, the way the encampments experiment with new democratic practices. These movements have all developed according to what we call a “multitude form” and are characterized by frequent assemblies and participatory decision-making structures. (And it is worth recognizing in this regard that Occupy Wall Street and many of these other demonstrations also have deep roots in the globalization protest movements that stretched at least from Seattle in 1999 to Genoa in 2001.)

Much has been made of the way social media such as Facebook and Twitter have been employed in these encampments. Such network instruments do not create the movements, of course, but they are convenient tools, because they correspond in some sense to the horizontal network structure and democratic experiments of the movements themselves. Twitter, in other words, is useful not only for announcing an event but for polling the views of a large assembly on a specific decision in real time.

Do not wait for the encampments, then, to develop leaders or political representatives. No Martin Luther King, Jr. will emerge from the occupations of Wall Street and beyond. For better or worse — and we are certainly among those who find this a promising development — this emerging cycle of movements will express itself through horizontal participatory structures, without representatives. Such small-scale experiments in democratic organizing would have to be developed much further, of course, before they could articulate effective models for a social alternative, but they are already powerfully expressing the aspiration for a “real democracy.”

Confronting the crisis and seeing clearly the way it is being managed by the current political system, young people populating the various encampments are, with an unexpected maturity, beginning to pose a challenging question: If democracy — that is, the democracy we have been given — is staggering under the blows of the economic crisis and is powerless to assert the will and interests of the multitude, then is now perhaps the moment to consider that form of democracy obsolete?

If the forces of wealth and finance have come to dominate supposedly democratic constitutions, including the U.S. Constitution, is it not possible and even necessary today to propose and construct new constitutional figures that can open avenues to again take up the project of the pursuit of collective happiness? With such reasoning and such demands, which were already very alive in the Mediterranean and European encampments, the protests spreading from Wall Street across the United States pose the need for a new democratic constituent process.

Arabs are democracy’s new pioneers

Posted: January 30, 2012 in 2011

Michael Hardt and Antonio Negri
February 24 2011, The Guardian

One challenge facing observers of the uprisings spreading across north Africa and the Middle East is to read them as not so many repetitions of the past but as original experiments that open new political possibilities, relevant well beyond the region, for freedom and democracy. Indeed, our hope is that through this cycle of struggles the Arab world becomes for the next decade what Latin America was for the last – that is, a laboratory of political experimentation between powerful social movements and progressive governments from Argentina to Venezuela, and from Brazil to Bolivia.

These revolts have immediately performed a kind of ideological house-cleaning, sweeping away the racist conceptions of a clash of civilisations that consign Arab politics to the past. The multitudes in Tunis, Cairo and Benghazi shatter the political stereotypes that Arabs are constrained to the choice between secular dictatorships and fanatical theocracies, or that Muslims are somehow incapable of freedom and democracy. Even calling these struggles “revolutions” seems to mislead commentators who assume the progression of events must obey the logic of 1789 or 1917, or some other past European rebellion against kings and czars.

These Arab revolts ignited around the issue of unemployment, and at their centre have been highly educated youth with frustrated ambitions – a population that has much in common with protesting students in London and Rome. Although the primary demand throughout the Arab world focuses on the end to tyranny and authoritarian governments, behind this single cry stands a series of social demands about work and life not only to end dependency and poverty but to give power and autonomy to an intelligent, highly capable population. That Zine al-Avidine Ben Ali and Hosni Mubarak or Muammar Gaddafi leave power is only the first step.

The organisation of the revolts resembles what we have seen for more than a decade in other parts of the world, from Seattle to Buenos Aires and Genoa and Cochabamba, Bolivia: a horizontal network that has no single, central leader. Traditional opposition bodies can participate in this network but cannot direct it. Outside observers have tried to designate a leader for the Egyptian revolts since their inception: maybe it’s Mohamed ElBaradei, maybe Google’s head of marketing, Wael Ghonim. They fear that the Muslim Brotherhood or some other body will take control of events. What they don’t understand is that the multitude is able to organise itself without a centre – that the imposition of a leader or being co-opted by a traditional organisation would undermine its power. The prevalence in the revolts of social network tools, such as Facebook, YouTube, and Twitter, are symptoms, not causes, of this organisational structure. These are the modes of expression of an intelligent population capable of using the instruments at hand to organise autonomously.

Although these organised network movements refuse central leadership, they must nonetheless consolidate their demands in a new constituent process that links the most active segments of the rebellion to the needs of the population at large. The insurrections of Arab youth are certainly not aimed at a traditional liberal constitution that merely guarantees the division of powers and a regular electoral dynamic, but rather at a form of democracy adequate to the new forms of expression and needs of the multitude. This must include, firstly, constitutional recognition of the freedom of expression – not in the form typical of the dominant media, which is constantly subject to the corruption of governments and economic elites, but one that is represented by the common experiences of network relations.

And given that these uprisings were sparked by not only widespread unemployment and poverty but also a generalised sense of by frustrated productive and expressive capacities, especially among young people, a radical constitutional response must invent a common plan to manage natural resources and social production. This is a threshold through which neoliberalism cannot pass and capitalism is put to question. And Islamic rule is completely inadequate to meet these needs. Here insurrection touches on not only the equilibriums of north Africa and the Middle East but also the global system of economic governance.

Hence our hope for the cycle of struggles spreading in the Arab world to become like Latin America, to inspire political movements and raise aspirations for freedom and democracy beyond the region. Each revolt, of course, may fail: tyrants may unleash bloody repression; military juntas may try to remain in power; traditional opposition groups may attempt to hijack movements; and religious hierarchies may jockey to take control. But what will not die are the political demands and desires that have been unleashed, the expressions of an intelligent young generation for a different life in which they can put their capacities to use.

As long as those demands and desires live, the cycle of struggles will continue. The question is what these new experiments in freedom and democracy will teach the world over the next decade.